O meu ano nos States (António Valadas, Director da MultiWay)

(Foi assim que tudo começou)

Princípio de Agosto de 1956. Tinha feito 16 anos poucos dias antes. Ia partir para Glendale, uma cidade perto de Los Angeles. Tudo tinha começado uns meses antes, durante um intervalo no Pedro Nunes. Um colega perguntou-me: É pá, não gostavas de ir para os Estados Unidos? A ideia seduziu-me e tratei de me informar como devia proceder para me inscrever. Quando, em casa, falei nisso aos meus pais eles não prestaram grande atenção. Eu passava a vida a ter ideias novas, sempre fora do que era na altura considerado aceitável.

Os meus pais só acreditaram que eu iria mesmo quando recebi uma carta a dizer que tinha sido aceite no programa. A minha mãe chorou bastante. Falaram comigo e eu disse que queria mesmo ir. Aceitaram e nunca mostraram abertamente como lhes estava a custar.

A viagem foi épica. De comboio até Madrid, de avião até Bruxelas, de autocarro até Zebruge e, finalmente, de barco até New York. Fui todo o tempo enjoado. Depois ainda apanhei um avião e três escalas depois chegava ao aeroporto de LA, onde me esperava a minha família americana. Num cartaz figurava aquele que ia passar a ser o meu nome nos próximos doze meses: Tony.

Integrei-me bem na família. Para além dos pais tinha dois irmãos e uma irmã, de idades perto da minha. Claro que tive vários choques. A família abordava abertamente temas que em Portugal não eram falados em família. Os conceitos sobre o comportamento eram muito diferentes daqueles a que estava habituado. Dizerem-me que havia uma ditadura em Portugal foi algo em que eu nunca tinha pensado.

Ser um estudante de intercâmbio naquela altura era uma novidade, mesmo nos Estados Unidos, pelo que eu tinha um estatuto de “estrela” a que não estava habituado e, devo confessar, para o qual não estava preparado.

Estar numa escola em que havia mais raparigas que rapazes foi algo totalmente novo. Nessa altura em Portugal um jovem, quando tentava aproximar-se do liceu das raparigas, era corrido pela polícia. O sistema de “dating”, sair com uma rapariga como par, foi aproveitado até à exaustão.
A escola americana deixou-me deslumbrado. A atividade constante, a enorme variedade de disciplinas que cada um podia escolher de acordo com os seus interesses, a informalidade dos professores, tudo aquilo era novo para mim. E os equipamentos desportivos, pavilhões, estádio, piscina, courts de ténis. E o auditório, onde se representavam peças de teatro e musicais, totalmente interpretadas pelos alunos, com um empenhamento digno de profissionais. E o parque de estacionamento! Esse foi talvez o meu espanto maior, constatar que todos os jovens a partir dos 16 anos iam no seu carro para a escola.

Num ano como aquele, e sobretudo naquela altura, as novidades, as “histórias” foram mais que muitas. Entre tantas recordo: a primeira refeição na família americana, a minha participação no grupo coral, o dia em que me pediram para participar no grupo de bailado, os clubes das senhoras americanas, as minhas apresentações perante a escola inteira, a minha primeira “blind date”, a excursão ao Arizona com a Igreja Metodista, os dias em casa dos Mormons, a minha primeira “short story” em Inglês, a paixão falhada por uma havaiana, a descoberta do ski aquático, uma festa que acabou na esquadra… Devo ter centenas de histórias só desse tempo, que não me ocorrem de momento. Se quiserem poderei vir a falar mais nelas noutra altura.

Foi esta experiência que desencadeou em mim o desejo de conhecer melhor outros países, outras culturas. Foi esta experiência que faz com que, ainda hoje, eu procure incentivar todos os jovens a partir á descoberta, não apenas dos outros mas, sobretudo, de si próprios. Só quando confrontados com novas situações é que nos damos conta das nossas reais capacidades.

Esta é também a razão pela qual continuo a desempenhar com gosto a minha atividade. A forma como, anos mais tarde, os meus antigos estudantes ainda se referem à sua experiência no estrangeiro é a melhor compensação a que poderia aspirar.






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